O que somos, senão, colectores de memórias? Talvez caçadores-recolectores… de memórias! Delas depende a nossa sobrevivência, nelas estão baseadas todas as nossas interacções, físicas, motoras, locomotoras, emocionais, sociais, sexuais, enfim, todas, sem excepção.
Sem armazenamento de conhecimento não existiria cognição. Sem aquisição de memórias não haveria evolução.
Desde a aurora da humanidade que essas memórias são partilhadas, porque além de caçadores-recolectores, somos contadores de histórias. E que são histórias senão uma colecção de memórias? Senão uma compilação misturada e remisturada de memórias?
E desde essa mesma aurora, ainda na caverna, iniciámos o seu registo, em pedra com sangue e carvão. As tecnologias da caça e do fogo deram origem a instrumentos e ferramentas de registo. Das cinzas renasce a fénix… da tecnologia nasceu a perenidade, se não, a imortalidade.
Passaram 20.000 anos desde então, o sangue e o carvão cederam o seu lugar aos bits e bytes, pixéis e megapixéis, milhões de milhões deles! No entretanto inventamos emulsões fotográficas, exploramos a exposição e a radiação, fascinamo-nos pela magia da revelação e encantamo-nos com a projecção. O que sentiram os nossos antepassados ao ver as suas fotografias projectadas com uma lanterna mágica? Possivelmente o mesmo que sentimos na utilização do dispositivo chamado diapositivo, projectado na sala ou na cozinha, revisitando as férias de verão com os avós!
As fotografias são pedaços de vidas, emoções cristalizadas, instantâneos transformados em sucedâneos que tomamos quando temos saudades e queremos relembrar. Sendo o instante o mais pequeno espaço de tempo apreciável, quantas emoções, quantas sensações, quantas comoções, quantas memórias carregam uma fotografia?
|as memÓrias dOs outrOs| são sete histórias, de sete famílias de desconhecidos. São sete colecções de diapositivos, momentos e mementos encaixilhados que percorrem os carretos dos projectores, em direcção às paredes vazias e brancas, inundando-as, deixando-as a escorrer memórias… as memórias dos outros. Até que alguém se reconheça ou se lembre ou relembre alguma dessas memórias. Procuramos essas famílias, as proprietárias legítimas destas memórias que, por razões igualmente desconhecidas, foram parar a lojas de antiguidades ou sites de vendas em segunda mão na internet…!!!
Qual a importância das memórias armazenadas em dispositivos físicos para a manutenção e continuidade memória individual e colectiva? Qual a relação de afecto com esses mesmos dispositivos? Quando ocorre o desapego àqueles meios? Quando é transformado esse desapego em distanciamento? Quando surge o desinteresse, a indiferença e finalmente o esquecimento? E o que lhes acontece quando deixamos o mundo material, quando o nosso corpo morre?
Na era da privacidade e protecção de dados, discute-se diariamente, exaustivamente, a questão da partilha de dados e informações pessoais na rede cibernética.
Para onde vão as nossas memórias? Para onde vão as nossas fotografias e os nossos textos? Estarão algum dia à venda num site de segunda mão? Já terão sido vendidas em sites de primeira mão? Onde estão armazenadas? Algures, pulverizadas entre servidores na Islândia e na Nigéria?
Queremos levantar estas questões e outras sobre dilemas do presente e do futuro, tendo em conta estas histórias do passado. Estas sete coleções de slides foram, como mencionado anteriormente, compradas a estranhos, vendedores em feiras e vendedores em sites de produtos de segunda mão na internet. Todos eles desconheciam as famílias ali retratadas. Nenhum deles tinha qualquer tipo de relação emocional com elas. Estas coleções eram meros objectos de comércio, no limiar do abjecto, algumas delas compradas acompanhando o recheio completo de casas. Estas coleções são pedaços incompletos de vidas desconhecidas, perdidas, e quem sabe, infelizmente esquecidas.
Essas questões são anteriores à internet e aos metaversos digitais, serão questões pertinentes e actuais enquanto a humanidade existir.
Foram convidad@s sete artistas a participar no projecto. Ao trazer as suas visões sobre cada história e a consequente apresentação ao público, surge a questão: Que memórias nos despertam as memórias dos outros? Para onde nos levam aquelas imagens, algumas em lugares que já visitamos ou até habitamos? Convidamos o público a uma viagem no interior, no seu interior, a uma viagem no tempo, até às décadas de 50’s, 60’s, 70’s e 80’s e a uma viagem pelo mundo passando por Portugal continental e insular, México, Grécia, Estados Unidos da América, Suíça, França e Áustria.
E novamente, insistimos que queremos, sobretudo e principalmente, encontrar as sete famílias que algures no seu trajecto perderam estas pérolas, agora resgatadas, reanimadas e revividas. Elas são a fonte inspiradora de todo este processo de reflexão e criação.
|as memÓrias dOs outrOs| são sete histórias revisitadas, reinterpretadas e remixadas audiovisualmente, analogica e digitalmente por sete artistas das áreas da música, design, videoarte, artes visuais e artes plásticas. O público é convidado a viajar por essas histórias a seu belo prazer, no seu tempo, sendo ele a comandar o pulso da visualização dos slides – cada história um núcleo expositivo, um projector de slides, um comando, um artista, uma viagem.
A cada artista foi entregue um projector de slides e um carreto com 50 slides. Cada artista entregará a sua interpretação e a sua inspiração.
As sete histórias, agora ressuscitadas, adquiriram uma nova camada, cada uma delas animada por uma nova mente e uma nova consciência. Ao chegarem ao público, serão impressas novas histórias, novas memórias, novas camadas sobre aquelas imagens projectadas na parede da galeria, permitindo resgatar aquelas do esquecimento.
Cada uma das sete peças artísticas compostas ficará exposta com a sua respectiva história em diapositivos.
